16/08/2006 02:28
INSPIRADO EM LIVRO DE FRANZ KAFKA E COM DIREÇÃO DE ANTÔNIO JANUZELLI, QUERIDO PAI ESTRÉIA NO VIGA
Explorando a improvisação em cena e técnicas de atuação criadas por Antônio Januzelli, o espetáculo teatral QUERIDO PAI, livre adaptação do livro Carta ao Pai, de Franz Kafka, faz temporada no Viga Espaço Cênico.
A segunda montagem do Grupo Arquipélago analisa as relações humanas, políticas e sociais, por meio de um conflito dramático entre pai e filho
Inspirado no livro Carta ao Pai, de Franz Kafka, o espetáculo faz uma análise das relações humanas, políticas e sociais, por meio de um conflito dramático entre pai e filho, explorando as práticas de atuação criadas por Antônio Januzelli (denominadas de Laboratório Dramático do Ator e inspiradas em técnicas de Jerzy Grotowski e na teoria artaudiana, de Antonin Artaud). De acordo com o diretor, o processo de criação e dramaturgização (dramaturgia que se origina na ação dos atores) se desdobrou em depoimentos e vivências pessoais de cada um, influenciados pela carta escrita por Kafka ao próprio pai. O foco do trabalho é o espaço em que o ator desenvolve a exploração de idéias, que nascem de jogos e experimentações sobre o tema e de acordo com os aspectos do laboratório, explica.
Um dos objetivos do grupo, que acaba de receber o prêmio Funarte Petrobrás de estímulo ao teatro, é aprofundar a pesquisa sobre a arte do ator e a relação pai e filho, calcada no poder, tema fundamental em Kafka. O espetáculo é um movimento de pesquisa da relação entre pai e filho e da dramaticidade do ator. Os caminhos da encenação partem de improvisos direcionados ao tema, sem estética artificial ou caricaturas nas atuações, diz Januzelli.
Atualidade
Para o diretor, é evidente que o autor e a obra em questão discutem as conseqüências e implicações de uma sociedade cada vez mais complexa, mais regrada e confusa para o homem, que se perde no mundo jurídico e burocrático, criado por ele próprio. O espetáculo busca contextualizar a relação da carta, escrita na última década do século 19, em nossa atualidade. Exploramos o tema como é visto hoje em dia, estabelecendo vínculos entre as questões levantadas na carta e a relação verdadeira de cada ator, afirma.
Carta ao Pai é literalmente uma carta escrita por Franz Kafka a seu pai, Hermman Kafka, cujo endereçado nunca leu. Vai da infância à idade adulta, narrando com intimidade e emoção a trajetória da educação que recebeu momentos de profunda admiração e outros de grande repulsa ao pai, homem forte, seco e autoritário. A mãe, irmãos e primos do autor também são personagens desta história real, sem faltar dedicação de paixões, críticas e insatisfações.
Vale ressaltar que, mesmo com a estréia, o trabalho de pesquisa teatral ainda está em desenvolvimento e seguirá durante e depois da temporada. É um estudo permanente, diz o idealizador do projeto, Frederico Foroni, que interpreta Franz Kafka na peça.
Montagem
O cenário, a iluminação e a trilha sonora do espetáculo ressaltam e revelam a realidade do espaço cênico. Na cenografia, um lugar sem adereços e livres de referências externas, há a ausência de cenário. A atmosfera cênica surge a partir do trabalho do ator. Nada mais é necessário para que aconteça o espetáculo, explica a cenógrafa Laura Carone.
A iluminação, de Miló Martins, também é um recurso que revela o espaço real. Procurei iluminar o espaço destacando sua própria forma, e não a ilusão de um momento estar no pôr do sol ou dentro de um quarto, por exemplo. Cabe ao ator colocar-se às claras ou aos contrastes e cabe ao público embarcar na ilusão, diz. No trabalho, Miló busca valorizar a criatividade ilimitada do artista em cena. Uma luz sem truques para atores sem máscaras.
Em relação à trilha sonora da peça, realizada pelo músico Marcus Siqueira, existe uma pesquisa, ainda em andamento, em que a musicalidade aparece por meio da voz e dos movimentos dos atores no espaço. A música nasce da necessidade interna de cada ator em se musicar o gesto, a palavra, o passo e, inclusive, o silêncio. Não há música real para a platéia, senão aquelas que são frutos da voz e do atrito do ator no palco, afirma.
Preparação corporal e vocal
A abordagem da preparação corporal neste processo foi explorar os conceitos de oposição. No lugar de trabalhar com a estruturação do corpo, caminho geralmente percorrido, trabalhei com a desestruturação, desequilíbrio, desmembramento e reformulação dos caminhos do movimento e dos pensamentos corporais, afirma Patrícia Noronha, responsável pela atividade no espetáculo. Optei por este caminho para que, mais do que orientar os atores, eu os desorientasse, oferecendo ferramentas para descobrirem seus corpos por meio de novos referenciais e, assim, mergulhar no universo asfixiante da narrativa de Kafka, explica.
As técnicas utilizadas para a preparação vocal promovem a integração entre corpo, voz e audição. O resultado foi o desenvolvimento do exercício que chamamos de voz dramática, que se caracteriza por maior profundidade, magnitude, densidade, amplitude, dilatação, expansão e, sobretudo, maior veracidade do trabalho, diz Laura Melamed, que assina a preparação vocal para a montagem. Ela explica que o processo evita a fragmentação do ator em corpo, voz, mente e alma, numa concepção integradora, da qual a voz dramática é uma das expressões.
Sobre Antônio Januzelli
Diretor, ator, professor e pesquisador das práticas do ator, Januzelli é bacharel em direito pela PUCAMP e formado em artes cênicas pela ECA-USP (Escola de comunicação e Arte) e pela EAD (Escola de Arte Dramática). Com mestrado e doutorado pela ECAUSP, é professor da EAD, ECA e Universidade São Judas Tadeu, além de ser vice-chefe do departamento de artes cênicas da USP, coordenador do LINCE (Laboratório do Ator), coordenador do curso de pós-graduação em teatro na Universidade São Judas Tadeu, membro do conselho editorial da Revista da ECA - USP, membro do conselho editorial da Revista do LUME Unicamp e representante do departamento de artes cênicas na AIEST (Associación Ibero Americana de Escuelas Superiores de Teatro). Januzelli é autor dos livros A Aprendizagem do Ator (editora Ática, 1986 1992), Ofício do Ator e os Estágios das Transparências e Metodologias da Prática do Ator no Brasil os dois últimos ainda serão publicados. Dirigiu e atuou em mais de 50 produções no Brasil.
(Izabel Duva agosto de 2006)
QUERIDO PAI, - Estréia dia 15 de agosto, terça-feira, às 21horas no VIGA Espaço Cênico. Direção: Antônio Januzelli. Texto: Livre adaptação do livro Carta ao Pai, de Franz Kafka. Tradução: Modesto Carone. Elenco: Henrique Schafer, Frederico Foroni, Eduardo Ruiz e Patrícia Ermel. Dramaturgização: Eduardo Ruiz. Assistência de Direção: Kleider Risso. Cenografia e Figurinos: Laura Carone. Iluminação: Miló Martins. Trilha Sonora: Marcus Siqueira. Preparação Corporal: Patrícia Noronha. Preparação Vocal: Laura Melamed. Pesquisa e Assistência de Cenografia: Carolina Bassi e Aline Grego. Pesquisa e Assistência de Figurinos: Lara Alcantara e Raquel Thomé. Assistente de Iluminação: Priscilla Carbonne. Fotografia: Samantha Ardito. Arte Gráfica: Francisco Mistrello e Felipe Lisboa. Registro em Vídeo: Juliana Ianni e Roberto Andreoli. Produção Executiva: Ricardo Monastero e Luciana Gabriel. Elaboração de Projeto: Stella Rainer e Luciana Gabriel. Idealização: Frederico Foroni. Realização: Arquipélago. Temporada: Até 11 de outubro de 2006. Terças e Quartas-feiras, às 21 horas. Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00 (estudantes, professores, idosos e classe teatral). Dinheiro ou cheque. Duração: 80 minutos. Censura: Recomendado para maiores de 14 anos.
VIGA Espaço Cênico Rua Capote Valente, 1323 Próximo à estação de metrô Sumaré. Telefone: 3801-1843. Capacidade: 74 lugares. Bilheteria: uma hora antes do início de cada sessão. Reserva: por telefone ou por e-mail no site www.viga.art.br
enviada por Michel Fernandes
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